08/07/2009

Cenas

Passando pelo caminho de sempre ao voltar para a casa depois de mais um dia de aula, um catador de lixo me comprimenta com um sorriso largo e me diz bom dia. Eu retribuo. Ele faz piada com o fato de estar carregando aquele carrinho parecendo um burro de carga. Eu completo dizendo que parece que o cachorrinho que está lá dentro está o guiando. Ele dá gargalhadas da piada totalmente sem graça que eu fiz. Olho o cachorro que está imundo mas também aparenta felicidade. Enquanto vamos pelo mesmo caminho trocamos mais alguns assuntos amenos. Enquanto ele dobra a esquina, eu sigo reto. Enquanto ele permance com seu sorriso largo levando garrafas de plástico em um carrinho enferrujado, eu fecho minha expressão e continuo andando com inveja de quem é feliz mesmo que a vida não tenha lhe dado nada.

06/07/2009

Perfil ideológico do Bob Esponja e seus amigos

O extinto blog Centro de Mídia Independente do Socialismo Caviar (que lamentavelmente saiu do ar) analisou o perfil ideológico dos personagens de um dos desenhos mais populares do Nickelodeon. Achei esse texto esses dias guardado em minha velharias.

Bob Esponja - Um capitalista libertário

Bob Esponja Calça Quadrada está sempre contente porque sabe levar a sua vida e não quer governar a vida de ninguém. Leva uma vida não-convencional - mora num abacaxi... no fundo do mar - é otimista e se diverte entusiasticamente. Seu hobby é a caça esportiva das águas-vivas, o que deixaria qualquer econazista dando chilique. Tem boa ética de trabalho, se empenhando em servir a clientela como funcionário do "Siri Cascudo", a lanchonete do Sr. Siriguejo. É criativo como um bom capitalista libertário (vide episódio da folhinha de papel).

Senhor Siriguejo - Conservador

Sr. Siriguejo é pão duro (um Tio Patinhas versão fundo-do-mar) e não é liberal como o Bob Esponja, mas é um pai de família e um empresário competente e que se importa com seus funcionários. Inovador com sua fórmula secreta do hambúrguer de siri, ele se empenha no atendimento de sua freguesia como bom capitalista que é.

Sandy Bochecha - Liberal

Uma "esquila" atleta amistosa que se dispõe a viver no fundo do mar deve ser liberal. Como boa texana, sabe quebrar o pau e é dura na queda. Gosta de esportes radicais (mas não tem nada a ver com aqueles anti-capitalistas aborrecentes metidos a revolucionários) e sabe karatê para garantir seu direito de propriedade e colocar qualquer vândalo esquerdinha em seu devido lugar.

Patrick Estrela - Inocente útil (ou seria inútil?)

É o melhor amigo do Bob Esponja, mas é meio maluco e muito burro, portanto seria capaz de votar no PT. Estrela rosada só podia ser coisa de esquerda festiva mesmo!





Lula Molusco - Socialistinha Caviar

Mau-humorado, narcisista e egocêntrico, não se empenha em seu trabalho mas se julga bom merecedor. Esse resmungão quer apenas ser admirado sem dar nada em troca e tudo o aborrece. Tem o perfil típico do burguês petista, que anda de carro importado com adesivinho do PT, reclama da desigualdade social e acha que "o estado deve investir". E ainda acha que é artista de talento!


Plankton - Esquerdinha

Ele é o maior inimigo do capitalista Sr. Siriguejo. Plankton é dono do restaurante fracassado "Balde de Lixo" - nome condizente com o socialismo - e deseja roubar a fórmula secreta do hambúrguer do Sr. Siriguejo e para isso inventa mil e uma artimanhas maldosas. Incompetente e sociopata, tem delírios de grandeza, cobiça de poder e sonha em ser gigante para esmagar o mundo com seus pés - isso é, no fundo, o ideal tirânico de todo esquerdinha. Se o Lula Molusco e o Patrick Estrela votariam no PT, o Plankton seria eleitor da Heloísa Helena e do PSTU.

23/06/2009

Pombo: vê se me erra!

Para chegar ao escritório faço uma caminhada de leve, passando sempre pela Praça Rui Barbosa aqui em Uberaba. Ao ver as pessoas passarem embaixo do letreiro do Elvira Shopping, onde os pombos colocam seus ninhos, sempre imaginei que um dia isso fosse (literalmente) dar merda. Digo isso, pois como diria Pedro Bial, tive experiências traumatizantes com a queda excrementos da pequena ave columbiforme em minha vestimenta durante os tempos primórdios de minha vida. Isso faz com que, como diria Gabriel Leite Mendes, eu esteja escaldado com esse passarinho cagão feladaputa. Nem o até então homem mais poderoso do mundo escapou das pombas.

Meu All Star verde com o qual eu geralmente vou trabalhar está velhinho e quase cinza de tão desbotado, e o que é pior: pra amarrar seus cadarços tem todo um ritual. Quando saio com pressa, sem usar minha técnica ninja de laçadas, é liquido e certo que eles vão desamarrar no caminho. Pois nesse dia eu saí de casa atrasado e não amarrei meu tênis direito. Então me sentei pra amarrar meu cadarço e de repente um sujeito na porta do Elvira balbucia palavras de baixo calão. Era um pobre homem descuidado vítima de um, digamos... desarranjo de um “rato de asas”.

Ao ver algumas pessoas tentando segurar o riso enquanto o pobre senhor tirava sua blusa de frio, fiquei pensando quão odioso é esse bicho. Quantas pessoas no mundo eles atrapalham ao fazer suas necessidades fisiológicas lá do alto, quando poderiam pousar e obrar de preferência onde os seres humanos não pisam. Enquanto não existe nenhuma campanha para expulsar esses bichos repugnantes das praças públicas, é melhor que os transeuntes mais incautos (para terminar de gastar meu vocabulário, que foi todo pro saco nesse post) tomem cuidado, pois, como diriam os Mamonas Assassinas:

As pombas quando avoam
Por incrível que pareça
Ficam sobrevoando com seu cu amirando
Em nossas cabeças
Daí vem a rajada
De sua Bazuca Anal
Já tem pomba com mira-a-laser
O tiro sai sempre fatal

*Publicado originalmente em 11/05/07 - Não trabalho mais no centro, não tenho All Star verde. Mas as pombas estão à solta.

18/06/2009

Post tipo de Twitter

Mulher pra pintar cabelo de vermelho, precisa antes de tudo ter estilo.

08/06/2009

Um pequeno resumo das férias*

Minhas férias começaram em Bambuí. Prestei concurso onde tinha uma vaga e fiquei em 2º lugar. Bebi 2 caixas de cerveja e uma garrafa cachaça em um sábado com amigos e primo. Ouvi causos e ri até passar mal.
Arrumei até briga porque conversava com um menina que havia ficado, mas que agora tinha namorado. Também deixei de dar atenção a quem não merecia. Minha vida precisa tomar um rumo novo em certos aspectos e pra isso a gente nem sempre marca data. E eu de forma alguma ia esperar o ano novo pra fazer qualquer tipo de promessa. E estou feliz! Página virada então vamos ao próximo assunto.
Vi o Palmeiras encostar nos líderes em um bar onde eu era o único palmeirense! Não importo de ser minoria, na verdade eu até gosto, mas sozinho não tem graça ficar gritando. Nessa semana pegamos os dois favoritos ao título. São Paulo e Cruzeiro favoritos ao título? Como diz um amigo meu, a bicharada vai dominar o mundo...
Indo pra BH, fui para a uma festinha e tive uma grande surpresa! Encontrei o meu amigo André, que eu não via há quase 10 anos! Ele até comentou que leu aqui no blog quando comentei sobre uma das corridas mais brilhantes de Ayrton Senna, que assisti na casa dele, em Medeiros. Então ele me chamou para ir ao Mineirão no dia seguinte. Fui e não dei muita sorte ao Cruzeiro. Mas quer saber? Eles não estavam lá muito preocupados com a Sul-Americana.
A coisa que mais gostava de fazer era ficar nas livrarias. Gente de todo tipo ficavam nela. Um ambiente cosmopolita e cult que eu sinto falta em Uberaba. Na saída de uma delas, ouvi duas garotas conversando em outra língua. “Doch”, “lesen”, “nein”... É alemão! Alemão é uma língua maravilhosa. Falada por duas lindas nativas, ficou mais ainda! Mas a anta aqui parou de estudar alemão achando que não seria necessário em um curto prazo de tempo. Como entender uma língua que além de eu saber menos de 100 palavras e ainda por cima uma estrutura de frases complicadíssimas, onde até os verbos podem ser separados? Me ferrei...
Muita gente perguntou o que minha foto estava fazendo no
Jornal da Manhã, sendo que eu não estava na cidade. Foto de arquivo dãããã. Estava com o cabelo curto e nenhum dos 6 kg que ganhei nestas férias. De qualquer forma, a matéria marca minha volta ao cenário político da cidade, pelo menos por enquanto. A matéria era em relação ao fato de o STF ter aceitado a denúncia contra Anderson Adauto e José Luiz Alves no caso do mensalão.
Fui sexta à noite à Status um bar-livraria, ou livraria-bar, sei lá. Lá tinha Heineken com o mesmo preço de uma Brahma e chopp Backer mais barato que chopp Antarctica em Uberaba. No entanto, porém, contudo, todavia, o couvert artístico era R$ 7,00. Foda-se. Lá tocava uma banda de funk. E eles deixaram claro: funk de verdade, e não o funk carioca, segundo eles conhecido também como batidão. E deixo o link para o site deles. O nome da banda é
PoiZé. Minha prima me apresentou o lado pervertido de Carlos Drummond de Andrade. Eu não conhecia o livro “O Amor Natural” lançado bem depois de sua morte (1992, pra ser mais exato), que é composto por poemas eróticos. Dei este livro de presente a ela e resolvi abrir em uma página aleatoriamente, como se faz com aqueles livrinhos de auto-ajuda e saiu essa:

A língua lambe as pétalas vermelhas
da rosa pluriaberta; a língua lavra
certo oculto botão, e vai tecendo
lépidas variações de leves ritmos.
E lambe, lambilonga, lambilenta,
a licorina gruta cabeluda,
e, quanto mais lambente, mais ativa,
atinge o céu do céu, entre gemidos,
entre gritos, balidos e rugidos
de leões na floresta, enfurecidos.

Isso só me fez aumentar a admiração por Drummond. E por pessoas que gostam de Drummond também!
Sábado! Não consegui ingresso para o show do Teatro Mágico, mas vi palhaços no Pátio Savassi, onde fiz minha visita à Leitura. Nos últimos dias eu já tava imaginando a volta. Na falta que me fazem algumas pessoas. Só nisso que eu conseguia pensar.
Duas baixas: meu DVD do Teatro Mágico, que ficou em Bambuí, e meus óculos, que pela minha reconstituição deve ter ficado na rodoviária de Araxá. Tudo bem, preciso fazer uma consulta urgentemente e aquela armação estava toda torta já não servia mais.

*Post publicado em setembro de 2007. Muitos links que deixei nesse post se perderam. Não sou fã mais d'O Teatro Mágico e não aperfeiçoei meu alemão. O caso "Mensalão" ainda não foi julgado e não tenho fé que saia algo que preste. O ato de tomar Heineken já está vulgarizado até em Uberaba. Hoje tenho uma banda que faz um som parecido com o PoiZé e conheci outras pessoas bem interessantes que gostam de Drummond. E estou morrendo de vontade de voltar para Bambuí e BH esse ano. Dessa vez, para visitar a maior quantidade de butecos possíveis.

03/06/2009

Amar é...

Levar o amigo e sua namorada que não tem carro para o motel e ficar esperando dentro do carro ouvindo uma música até o serviço se completar.

24/05/2009

Toque de recolher

Se discute em Uberaba a possibilidade de proibir menores de idade de ficarem fora de casa depois das 23h.

Poderia falar da ineficiência (para não dizer inutilidade) da polícia.

Poderia comentar da péssima qualidade da educação formal.

Poderia dizer sobre a desleixo dos pais em relação à educação moral.

Poderia fazer uma enorme dissertação sobre a questão da atividade econômica que seria prejudicada e os vários postos de trabalho que desapareceriam (talvez o melhor argumento, já que não fala outra coisa que não seja de emprego).

Poderia falar também sobre o direito de ir e vir.

Mas vou apenas dizer que tenho vergonha de morar em uma cidade que quer castrar seu próprio futuro.

22/05/2009

Morreu Zé Rodrix

Eu vi Zé Rodrix muito poucas vezes, não acompanhei a sua carreira como publicitário, mas li algumas coisas interessantes a seu respeito. Como não sou um grande fã, não vou aqui fazer um longo tributo. Mas deixo aqui um video praqueles que nunca ouviram falar dele.
Na madrugada de hoje, Zé Rodrix deixou sua cela de ossos, carne e sangue.

21/05/2009

Nem se atreva a me dizer do que é feito o samba*

Sou fã de Los Hermanos. Mas se tem uma coisa que realmente estraga a banda, são seus fãs. É um pessoal estranho, que se faz de politicamente correto, mas a intransigência deles é uma coisa fora do comum. Uma vez ousei entrar na maior comunidade do orkut deles, e vi que existe até regras para fãs de Los Hermanos. Vou apenas rebater algumas delas.

Chico Buarque é melhor que o Camelo.
Alguém que diz que vai socar alguém até a morte por pedir uma música não podem ser chamadas de cultas ou idôneas.
O melhor disco dos Hermanos é o Ventura, e não o Bloco.
Eu não sou "cult".
Odeio camisas listradas e já usava All Star bem antes de gostar da banda.
Não odeio Charlie Brown Jr. mais do que gosto de Los Hermanos. CBJR é simplesmente uma banda ruim com um vocalista prego. Mas pra que se importar?
Coldplay é uma banda sem graça.
Se os Hermanos não querem fazer um Acústico MTV, problema deles. Até porque vão ganhar grana e com certeza, não iam perder nenhum fã por isso.
Jamais vou dançar igual ao Amarante.
E por último: Anna Júlia é uma música muito boa!

É foda ver gente que se acha revolucionária vir cagar regra. Eu nunca comprei briga em baladas e shows, mas por curiosidade antropológica, eu pediria Anna Júlia em um show do Los Hermanos. Mas infelizmente, a banda vai parar, segundo seus integrantes, por tempo indeterminado. Os últimos shows serão mês que vem no rio, e claro que eu não vou. Se vamos perder, apesar dos pesares, uma grande banda, vamos ficar com as malas que são seus fãs.

Para economizar meu tempo e para vocês lerem um texto mais legal e que fala tudo, acessem o blog Adolar Gangorra e leiam o post "Como me fudi no show do Los Hermanos".

*Publicado originalmente em 18/05/2007. Hoje nem sou tão fã de Los Hermanos assim e ainda racho de rir do texto do Adolar Gangorra.

18/05/2009

Porque anteontem foi sábado

Quando eu acordo com ressaca geralmente sentia sentimentos de culpa. "Imbecil! Porque bebeu tanto? Palhaço! Se fudeu, otário!", são as coisas que eu digo para mim mesmo. Para entender essa cena, é só assistir os simpsons e ver Homer conversando com o cérebro, é mais ou menos aquilo.Ultimamente, e passando por uma fase de quase abstinência de álcool, enchi a cara quando julguei na noite anterior que seria a melhor solução, pois a noite foi uma merda por motivos que não vem ao caso dizer, para não expôr pessoas que gosto muito. Resultado: a culpa foi substituída por uma tristeza muito grande, coisa que eu raramente sinto, especialmente logo após acordar.

A trilha sonora da manhã de sábado foi de Cartola (Deixe-me ir, preciso andar, vou por aí a procurar, rir pra não chorar...) à João Gilberto (Doralice, eu bem que lhe disse, amar é tolice, é bobagem, ilusão. Eu prefiro viver tão sozinho ao som do lamento do meu violão...) e quem sabe o que a música significa para mim, sabe muito bem o que isso quer dizer.

Eu tava me sentindo tão pra baixo que achei que isso ia durar o dia todo. Fiquei com uma enorme situação de impotência por não saber o que fazer com aquelas coisas que deixei na noite anterior que não poderiam ser curadas com os remédios que eu tomei, que aliás não foram suficientes nem pra acabar de uma vez por todas com a dor de cabeça desgraçada que eu fiquei.

Neste mesmo dia a tarde fui a um bar com os amigos. Ouvi boa música, ri muito. Muito mesmo. Nossos assuntos eram basicamente o desfile fashion das pessoas naquele dia que provavelmente foi o mais frio deste ano até agora, nossos problemas amorosos (a parte cômica, evidentemente) e outras amenidades. Depois disso, fiz alguns contatos no msn e um telefonema para pelo menos amenizar os estragos da noite anterior. Tudo certo (ou quase).

Durante esse tempo, fiquei pensando na ditadura da alegria que existe nos dias de hoje, onde pessoas tomam antidepressivos por qualquer coisinha, uma pequena frustração ou uma situação triste. Hoje, no entanto, percebo que a beleza da vida está em tudo o que somos capazes de sentir, e que precisamos viver todos esses sentimentos. A postura de certas pessoas que fingem estarem felizes o tempo todo, fazem elas deixarem de dar valor a essas pequenas alegrias. Falo isso porque durante muito tempo eu mesmo já fiquei com essa nóia de fingir que eu era um teletubbie e fingir que eu era simpático com todo mundo e sinceramente essa não é a solução. E com certeza, curti mais essas pequenas alegrias que meus amigos me proporcionaram do que em qualquer outro dia comum.

Tudo isso é pra dizer aos meus amigos: vocês são foda!

Revisão, só mais tarde

Sexismos

Pagu é uma música ridícula, citada geralmente por mulheres viadinhas ou muito feias.

04/05/2009

Questão existencial do dia

Tem uma galerinha aí divulgando fim do mundo em um site e também no Twitter (como essa gente paranóica é moderinha). O site fala de guerras, doenças, crises econômicas e zicas em geral, para nos convencer (?) que o mundo vai acabar em 2012. Em destaque está o "Colapso do Sistema Financeiro Mundial". E vai eu clicar no link que vai para este video abaixo:



Pergunto: Se o mundo vai acabar, por quê tenho que economizar dinheiro?
To be continued...

24/04/2009

Relação entre Dom Casmurro e o livro do post anterior

Recentemente, mostrei para o Evandro um texto sobre Dom Casmurro escrito pelo mestre Millôr Fernandes e sua visão um tanto "pós-moderna".

Eu li Dom Casmurro com 17 anos e tinha uma visão totalmente diferente da vida em relação a que tenho hoje. E me lembro que teve um julgamento na sala de aula e ajudei a fazer a caveira de Capitu. Não por eu realmente acreditar nisso, pois na época eu não achava era nada. Mas acontece que o professor deu mancada ao dizer antes a opinião dele (de que Capitu nao traiu Bentinho) e a maioria da sala (todas as meninas, aliás) ficou do lado dele. E como eu gostava de ser do contra, lá vai eu fazer os outros sentirem pena do corno do Bentinho.

O mais interessante é como o livro foi visto no decorrer da história. Machado viveu mais 8 anos após a publicação de sua obra mais famosa, e absolutamente ninguém cogitou o fato de que Capitu era inocente. Só nos anos 60, e por iniciativa de uma mulher estrangeira, começou-se a contestar o fato de Capitu ser uma adúltera. Passados os anos, com a emancipação da mulher e liberação sexual, quem hoje acredita que Capitu traiu Bentinho é tachado de machista. Ao conversar sobre isso com uma amiga no msn, sem eu ter expressado opinião nenhuma, consegui ver um dedo em riste saindo do monitor e apontando para o meu nariz. Depois disso ainda apareceram outras opiniões até plausíveis de que era Bentinho que traía Capitu e de que Bentinho era gay, ou até estas duas coisas ao mesmo tempo. Porque plausíveis? Porque Bentinho, com tanta insegurança, só poderia ser um típico canalha. Quem de nós, homens e mulheres, não tivemos relacionamentos com pessoas ciumentas e que não eram dignas de nossa confiança?

Depois da primeira vez que o li, só li resumos e comentários e hoje sou da seguinte opinião (que tenho medo de chamar de conclusão): Capitu traiu Bentinho sim. E se não o fez, é porque é uma mulher muito da submissa e insegura. Enfim, uma viadinha (o que em momento algum aparenta ser). Com um marido babaca tal qual Bentinho, não restava muita saída para senão sair pra dar pra outro cara. "Ah, mas Capitu não faria isso porque tinha princípios". Quem disser isso, por gentileza, não me chame de machista.

Desconsiderando a minha opinião, e fazendo um paralelo com o livro "Contra o Amor", que comentei no post anterior, pergunto: se Dom Casmurro fosse um thriller policial (Bentinho matou ou não Capitu, a promíscua?), um fato real com muita aparição na mídia (Capitu desviou 100milhões de dólares ou não para um paraíso fiscal?) ou um livro de auto-ajuda (Capitu mexeu ou não no meu queijo?). Pergunto isso porque dizem que o sucesso do livro está no "enigma". Mas enigmas há em todos os lugares.Em vários livros. Mas nem por isso tantos foram objeto de estudo como esse. E arrisco-me a dizer que não tem nada a ver com a "genialidade" da obra.

Como dito no trecho que eu postei sobre o livro "Contra o Amor - Uma Polêmica", as pessoas vivem em função do amor e isso está intimamente ligado à questão da fidelidade. A queimação de fosfato das pessoas em relação a esta questão do livro é a mesma que grande parte das pessoas usam para criar mecanismos para "manterem" suas relações.

Apesar de o casamento ser uma instituição falida, as pessoas insistem em fazer com eles dêem certo (entenda-se certo como "algo para a vida eterna") com mecanismos nada ortodoxos e que mais atrapalham do que ajudam a vida das pessoas envolvidas. Não que eu não pense que um relacionamento monogâmico seja inviável ou mesmo indesejável. Mas colocar isso como prioridade em uma vida, pelo menos na maioria dos casos que presenciei, mais atrapalhou do que ajudou, justamente por causa dos vários Bentinhos e Bentinhas que existem por aí, e bem mais sagazes e cruéis do que o personagem de Machado.


23/04/2009

Contra o amor - Uma Polêmica


Decidi que isso não é uma resenha porque pretendo falar do tema abordado no livro mais vezes nesse blog. Mas vou falar um pouco dele porque algumas pessoas pediram.

"Não há como ser contra o amor justamente porque nós, modernos, somos constituídos como seres que anseiam por satisfação, desejam conexão, precisam adorar e ser adorados, porque o amor é plasma vital e todo o resto do mundo é água de bica. Prostramo-nos nos portais do amor, ansiosos para entrar, como aqueles que não se cansam de aguardar do lado de fora das cordas de algum clube exclusivo na esperança de serem admitidos em suas salas suntuosas, confirmando assim nosso valor essencial e tornando-nos interessantes para nós mesmos."

Laura Kipnis adverte o leitor do livro logo de cara que a intenção é desconstruir o que é dito acima, já que existe quase uma unanimidade na concordância do que foi dito acima. E segundo ela, todas as religiões tem seus hereges, mas o amor é praticamente uma unanimidade.

A crítica na verdade é ao casamento, e as tentativas frustradas de amor eterno. O livro não é necessariamente o que ó título diz, portanto. No primeiro capítulo, mais técnico e talvez para a maioria o mais chato de todos, ela expõe a inviabilidade dos casamentos devido a vários fatores socioeconômicos da sociedade atual. No início do capitalismo, a ética calvinista transformou o casamento em aliado do sistema, já que as pessoas se casavam dentro de uma ética de trabalho e sacrifício, e os casamentos eram em grande parte arranjos familiares. No entanto, o capitalismo se transformou e criou a sociedade consumista e os casamentos raramente são arranjados. O hedonismo pode ser canalizado para o consumo. O resultado é que a indústria do sexo cresce a cada dia e o apelo da mesma faz com que o casamento se torne uma instituição em crise em nossa época.

Kipnis compara as casas com Gulags (antigos campos de concentração na URSS) e o segundo capítulo começa mais engraçado, quando ela mostra manchetes bizarras envolvendo crimes conjugais nos EUA. O medo e a dor de perder o amor é tão grande que se faz qualquer coisa para evitar que isso aconteça. Apaixonar-se também causa insegurança, ansiedade, e em alguns casos, violência exteriorizada. Níveis de confiança, grau de intimidade, perda de liberdade. Tudo ilustrado com muito humor. Em seguida ela volta a falar da questão da intimidade, na habilidade dos adúlteros, nas pequenas coisas cotidianas que acabam com um casamento e por fim faz um apanhado histórico de questões políticas que envolvem comportamento.

O livro é muito bom de se ler, ainda que seja um livro contraditório (a própria autora frisa isso). É um tema interessante para ser discutido e farei isso em outras oportunidades. Não concordo com muito do que foi dito, mas não há nada que não tenha sido colocado que nos leve a refletir sobre o conceito que temos de amor. Hoje existem muitos livros sobre o tema, mas este é um livro interessante tanto para quem quer ter explicações técnicas, quanto para quem quer se divertir.

Publicado originalmente no dia 02/09/07. Acho que começo a concordar com algumas coisas que foram ditas. Tanto que voltei a ler para ter uma opinião mais segura.


19/04/2009

Sacate el diablo!

Nunca tive interesse em videoclips. Hoje já estão batidos. Nem a MTV passa mais. Mas um clip que eu vi pela primeira vez há algum tempo atrás, no Programa do Jô, me chamou a atenção. Trata-se do clip da música El Diablo de tu Corazón, de Fito Paez, durante uma entrevista do mesmo para o Jô Soares, há uns cinco anos, acho. Este clip é muito bom. Não vou me falar de coisas como qualidade da fotografia, dos atores. Bom mesmo é ver algo algo tão chocante passar batido pela censura, ainda forte em muitos países da América Latina.

Fito fala com Buenos Aires (embora pudesse falar com uma outra cidade grande qualquer). Ele fala de uma cidade diferente da que ele encontrou no começo dos anos 80, que foi quando ele mudou do interior da Argentina para lá. O clip mostra em tons nada pastéis a realidade de uma metrópole. Mas apesar das cenas fortes de violência como as do clip, percebemos que estamos acostumados a hostilidades. No dia desta entrevista e exibição do clip, a platéia do programa se manifestou com choque muito maior quando foram mostrados os beijos homossexuais e o beijo entre a mulher grávida e o mendigo, do que naquela cena onde um funcionário de uma McLanchonete tem sua cabeça jogada no óleo quente por um colega. A violência para muitos já virou coisa normal.

Mas o clipe mostra também a esperança de que é possível virar o jogo. Existem pessoas que tentam mudar o quadro. Recentemente no Jornal Hoje, foi feita uma
matéria sobre o aumento de turistas brasileiros em Buenos Aires. Em um mundo onde é tão difícil demonstrações sinceras de afeto, chamou minha atenção o fato de haver uma feira na zona boêmia da cidade pessoas que no meio de tanta coisa sendo vendida, se propõem a distribuir abraços grátis. Ainda tem gente que quer "tirar o diabo de seus corações".

P.S.: E por falar em Rock Argentino, a banda Soda Stereo voltou a ativa depois de 10 anos e vem fazendo alguns shows. Ela é (pouco) conhecida aqui no Brasil principalmente por causa das versões de "De Música Ligera", feitas pelos Paralamas (De Música Ligeira) e pelo Capital Inicial, que recebeu o nome de "À Sua Maneira", que segundo a Thais, é uma versão teen da música original em espanhol. "Ni pienso evitar, sus roces secretos", virou "Nem penso em contar os nossos segredos".

Post publicado pela 1ª vez em 21/06/2007. A Soda Stereo fez uma turnê naquele ano e a grande mídia brasileira não noticiou quase nada. Em compensação, tivemos um excelente post de Alexandre Inagaki sobre a banda. E os abraços grátis (ou free hugs, como ficou conhecido no Brasil) é uma atividade comum entre a bicho-grilagem.

17/04/2009

Estou de volta

Pois é, pessoal, o Fumaça Ninja vai voltar. Até quando, não sei. Acontece que já estou há um bom tempo sem escrever no meu blog mais famoso e "profissional", o Contra Corrente, e estou sendo cobrado (e com razão) por isso. Eis que no meio das dezenas de pessoas que vieram me questionar os motivos pelos quais parei de escrever, três pessoas vieram falar deste espaço, que eu acreditava que ninguém, fora meus amigos próximos, lia.

Então eu resolvi voltar, até para ver se me ajuda a voltar a escrever também para a Contra, uma vez que os assuntos mais amenos escritos aqui podem colaborar para a minha capacidade de escrever, que hoje está um tanto enferrujada. E eu até prefiro esses assuntos mais amenos, e vou falar sobre isso em um post mais adiante. E espero sinceramente que assuntos ditos aqui, assim como os da Contra, também tenham repercussão não só entre pessoas que eu não conheço, mas também na imprensa local. Afinal, este mundo é levado a sério demais, e sinceramente, não sei se é a melhor opção.

Posts antigos serão republicados de acordo com a conveniência e falta de assunto, com as devidas atualizações. Meus amigos que têm blog, favor me passem o link para eu colocar no novo blogroll.

Enquanto isso, fiquem à vontade. Bjomeliga.