24/04/2009

Relação entre Dom Casmurro e o livro do post anterior

Recentemente, mostrei para o Evandro um texto sobre Dom Casmurro escrito pelo mestre Millôr Fernandes e sua visão um tanto "pós-moderna".

Eu li Dom Casmurro com 17 anos e tinha uma visão totalmente diferente da vida em relação a que tenho hoje. E me lembro que teve um julgamento na sala de aula e ajudei a fazer a caveira de Capitu. Não por eu realmente acreditar nisso, pois na época eu não achava era nada. Mas acontece que o professor deu mancada ao dizer antes a opinião dele (de que Capitu nao traiu Bentinho) e a maioria da sala (todas as meninas, aliás) ficou do lado dele. E como eu gostava de ser do contra, lá vai eu fazer os outros sentirem pena do corno do Bentinho.

O mais interessante é como o livro foi visto no decorrer da história. Machado viveu mais 8 anos após a publicação de sua obra mais famosa, e absolutamente ninguém cogitou o fato de que Capitu era inocente. Só nos anos 60, e por iniciativa de uma mulher estrangeira, começou-se a contestar o fato de Capitu ser uma adúltera. Passados os anos, com a emancipação da mulher e liberação sexual, quem hoje acredita que Capitu traiu Bentinho é tachado de machista. Ao conversar sobre isso com uma amiga no msn, sem eu ter expressado opinião nenhuma, consegui ver um dedo em riste saindo do monitor e apontando para o meu nariz. Depois disso ainda apareceram outras opiniões até plausíveis de que era Bentinho que traía Capitu e de que Bentinho era gay, ou até estas duas coisas ao mesmo tempo. Porque plausíveis? Porque Bentinho, com tanta insegurança, só poderia ser um típico canalha. Quem de nós, homens e mulheres, não tivemos relacionamentos com pessoas ciumentas e que não eram dignas de nossa confiança?

Depois da primeira vez que o li, só li resumos e comentários e hoje sou da seguinte opinião (que tenho medo de chamar de conclusão): Capitu traiu Bentinho sim. E se não o fez, é porque é uma mulher muito da submissa e insegura. Enfim, uma viadinha (o que em momento algum aparenta ser). Com um marido babaca tal qual Bentinho, não restava muita saída para senão sair pra dar pra outro cara. "Ah, mas Capitu não faria isso porque tinha princípios". Quem disser isso, por gentileza, não me chame de machista.

Desconsiderando a minha opinião, e fazendo um paralelo com o livro "Contra o Amor", que comentei no post anterior, pergunto: se Dom Casmurro fosse um thriller policial (Bentinho matou ou não Capitu, a promíscua?), um fato real com muita aparição na mídia (Capitu desviou 100milhões de dólares ou não para um paraíso fiscal?) ou um livro de auto-ajuda (Capitu mexeu ou não no meu queijo?). Pergunto isso porque dizem que o sucesso do livro está no "enigma". Mas enigmas há em todos os lugares.Em vários livros. Mas nem por isso tantos foram objeto de estudo como esse. E arrisco-me a dizer que não tem nada a ver com a "genialidade" da obra.

Como dito no trecho que eu postei sobre o livro "Contra o Amor - Uma Polêmica", as pessoas vivem em função do amor e isso está intimamente ligado à questão da fidelidade. A queimação de fosfato das pessoas em relação a esta questão do livro é a mesma que grande parte das pessoas usam para criar mecanismos para "manterem" suas relações.

Apesar de o casamento ser uma instituição falida, as pessoas insistem em fazer com eles dêem certo (entenda-se certo como "algo para a vida eterna") com mecanismos nada ortodoxos e que mais atrapalham do que ajudam a vida das pessoas envolvidas. Não que eu não pense que um relacionamento monogâmico seja inviável ou mesmo indesejável. Mas colocar isso como prioridade em uma vida, pelo menos na maioria dos casos que presenciei, mais atrapalhou do que ajudou, justamente por causa dos vários Bentinhos e Bentinhas que existem por aí, e bem mais sagazes e cruéis do que o personagem de Machado.


2 Comentário(s) - Comenta aí:

Larissa disse...

Gostei muito do ponto de vista, e fui obrigada a concordar... mas não pense que ainda não terei o tempo desperdiçado para bolar novas artimanhas da interpretação machadiana ;)

Luis Felipe disse...

HAHAHA! Grande "Biel"! Lembro perfeitamente dessa aula. Pô, vocês usaram até a capa do livro como argumento pró-Bentinho!

Interessante saber sobre a evolução da análise do comportamento de Bento e Capitu durante os anos. Recentemente, estive ligado na FLIP, onde Gay Talese (um puta escritor e jornalista) falava sobre o quanto a entrada das mulheres na redação transformou as notícias. Disse que, na década de 60, todos os repórteres em Washington conheciam os casos extraconjugais de John Kennedy, mas, em redações compostas quase que exclusivamente por homens, ninguém julgava que aquelas fossem notícia. Anos depois é que passaram a falar abertamente de Marylin Monroe. Clinton não teve a mesma sorte...