23/04/2009

Contra o amor - Uma Polêmica


Decidi que isso não é uma resenha porque pretendo falar do tema abordado no livro mais vezes nesse blog. Mas vou falar um pouco dele porque algumas pessoas pediram.

"Não há como ser contra o amor justamente porque nós, modernos, somos constituídos como seres que anseiam por satisfação, desejam conexão, precisam adorar e ser adorados, porque o amor é plasma vital e todo o resto do mundo é água de bica. Prostramo-nos nos portais do amor, ansiosos para entrar, como aqueles que não se cansam de aguardar do lado de fora das cordas de algum clube exclusivo na esperança de serem admitidos em suas salas suntuosas, confirmando assim nosso valor essencial e tornando-nos interessantes para nós mesmos."

Laura Kipnis adverte o leitor do livro logo de cara que a intenção é desconstruir o que é dito acima, já que existe quase uma unanimidade na concordância do que foi dito acima. E segundo ela, todas as religiões tem seus hereges, mas o amor é praticamente uma unanimidade.

A crítica na verdade é ao casamento, e as tentativas frustradas de amor eterno. O livro não é necessariamente o que ó título diz, portanto. No primeiro capítulo, mais técnico e talvez para a maioria o mais chato de todos, ela expõe a inviabilidade dos casamentos devido a vários fatores socioeconômicos da sociedade atual. No início do capitalismo, a ética calvinista transformou o casamento em aliado do sistema, já que as pessoas se casavam dentro de uma ética de trabalho e sacrifício, e os casamentos eram em grande parte arranjos familiares. No entanto, o capitalismo se transformou e criou a sociedade consumista e os casamentos raramente são arranjados. O hedonismo pode ser canalizado para o consumo. O resultado é que a indústria do sexo cresce a cada dia e o apelo da mesma faz com que o casamento se torne uma instituição em crise em nossa época.

Kipnis compara as casas com Gulags (antigos campos de concentração na URSS) e o segundo capítulo começa mais engraçado, quando ela mostra manchetes bizarras envolvendo crimes conjugais nos EUA. O medo e a dor de perder o amor é tão grande que se faz qualquer coisa para evitar que isso aconteça. Apaixonar-se também causa insegurança, ansiedade, e em alguns casos, violência exteriorizada. Níveis de confiança, grau de intimidade, perda de liberdade. Tudo ilustrado com muito humor. Em seguida ela volta a falar da questão da intimidade, na habilidade dos adúlteros, nas pequenas coisas cotidianas que acabam com um casamento e por fim faz um apanhado histórico de questões políticas que envolvem comportamento.

O livro é muito bom de se ler, ainda que seja um livro contraditório (a própria autora frisa isso). É um tema interessante para ser discutido e farei isso em outras oportunidades. Não concordo com muito do que foi dito, mas não há nada que não tenha sido colocado que nos leve a refletir sobre o conceito que temos de amor. Hoje existem muitos livros sobre o tema, mas este é um livro interessante tanto para quem quer ter explicações técnicas, quanto para quem quer se divertir.

Publicado originalmente no dia 02/09/07. Acho que começo a concordar com algumas coisas que foram ditas. Tanto que voltei a ler para ter uma opinião mais segura.


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